Diz o abstêmio:
- Não sabe que beber é uma morte lenta?
Responde o beberrão:
- Tudo bem... não tenho pressa.
Ambos estão equivocados.
Todos morremos lentamente.
Programados biologicamente para uma
existência aproximada de um século, sofremos lento, progressivo,
inexorável desgaste celular que culminará com o colapso orgânico,
transferindo-nos para o Além.
Por outro lado, o vício sobrecarrega e compromete o funcionamento de órgãos vitais, o que acelera o processo.
O alcoólatra, portanto, morre mais depressa.
Situando o corpo como uma máquina que
nos é emprestada para a viagem terrestre, imaginemos nosso
constrangimento ao sermos informados por mentores espirituais de que
arrebentamos com ela, indiferentes à sua preservação...
- Meu filho, lamento dizer que você regressou extemporaneamente. Está incurso no suicídio indireto! *
- Não é possível: Há algum engano!... Adorava a existência humana!
- Adorava beber! Nunca se
conscientizou de que estava prejudicando seu corpo, embora ele o
avisasse, freqüentemente, sinalizando com males variados. Eram doridos e
ignorados pedidos de socorro de um servo que você está afogando em
álcool.
- E agora?
- É esperar pela reencarnação. Alguns
decênios com um fígado sensível, um aparelho digestivo complicado e você
esquecerá a bebida, como irrealizável paixão que se esvai com o tempo.
Uma úlcera gástrica obstinada, talvez um câncer depois, o ajudarão a
recompor o perispírito ferido pelo vício...