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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Veneno livre

Pede você que os Espíritos desencarnados se manifestem sobre o álcool, sobre os arrasamentos do álcool.
Muito difícil, entretanto, enfileirar palavras e definir-lhe a influência. Basta lembrar que a cobra, nossa velha conhecida, cujo bote comumente não alcança mais que uma só pessoa, é combatida a vara de ferro, porrete, pedra, armadilha, borralho, água fervente e boca de fogo, vigiada de perto pela gritaria dos meninos, pela cautela das donas de casa e pela defesa do serviço municipal, mas o álcool, que destrói milhares de criaturas, é veneno livre, onde quer que vá, e, em muitos casos, quando se fantasia de champanha ou de uísque, chega a ser convidado de honra, consagrando eventos sociais. Escorrega na goela de ministros com a mesma sem-cerimônia com que desliza na garganta dos malandros encarapitados na rua. Endoidece artistas notáveis, desfibra o caráter de abnegados pais de família, favorece doenças e engrossa a estatística dos manicômios; no entanto, diga isso num banquete de luxo e tudo indica que você, a conselho dos amigos mais generosos, será conduzido ao psiquiatra, se não for parar no hospício.

domingo, 6 de novembro de 2011

Diabólico Elixir

Diz o abstêmio:
- Não sabe que beber é uma morte lenta?
Responde o beberrão:
- Tudo bem... não tenho pressa.
Ambos estão equivocados.
Todos morremos lentamente.
Programados biologicamente para uma existência aproximada de um século, sofremos lento, progressivo, inexorável desgaste celular que culminará com o colapso orgânico, transferindo-nos para o Além.
Por outro lado, o vício sobrecarrega e compromete o funcionamento de órgãos vitais, o que acelera o processo.
O alcoólatra, portanto, morre mais depressa.
Situando o corpo como uma máquina que nos é emprestada para a viagem terrestre, imaginemos nosso constrangimento ao sermos informados por mentores espirituais de que arrebentamos com ela, indiferentes à sua preservação...
- Meu filho, lamento dizer que você regressou extemporaneamente. Está incurso no suicídio indireto! *
- Não é possível: Há algum engano!... Adorava a existência humana!
- Adorava beber! Nunca se conscientizou de que estava prejudicando seu corpo, embora ele o avisasse, freqüentemente, sinalizando com males variados. Eram doridos e ignorados pedidos de socorro de um servo que você está afogando em álcool.
- E agora?
- É esperar pela reencarnação. Alguns decênios com um fígado sensível, um aparelho digestivo complicado e você esquecerá a bebida, como irrealizável paixão que se esvai com o tempo. Uma úlcera gástrica obstinada, talvez um câncer depois, o ajudarão a recompor o perispírito ferido pelo vício...